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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Panfletagem: uma mídia silenciosa

Acompanhamos um dia na rotina dos panfleteiros em Natal.



Diariamente, nas ruas, avenidas, em semáforos ou em nossas casas, eles estão lá distribuindo panfletos e encartes de grandes lojas, redes de supermercados e outros. Um ritual simples e silencioso, que passa despercebido pela maioria das pessoas. Trata-se do panfleteiro, função reconhecida pelo Ministério do Trabalho, porém, marginalizada. Ganhos por produtividade e poucos requisitos para preenchimento das vagas são características da função.

Em Natal, nove empresas atuam no segmento. O tipo de panfletagem varia de acordo com o desejo do cliente, sendo as mais comuns feitas em semáforos e a residencial (porta-a-porta).  O regime de trabalho é por hora, com o ganho em função do tempo de serviço diário, mas também se pode receber em função da quantidade entregue ou da área percorrida (residencial). O dia de serviço em média rende em torno de R$ 20,00, mas como não são diários, por vezes até incertos, os ganhos raramente chegam ao salário mínimo. Por isso mesmo é maior o número de mulheres, em sua maioria donas de casa, que fazem dessa atividade uma renda extra para a família.

Acompanhamos um dia de trabalho na empresa Medien Service, especializada na distribuição em residências. A partir das 7h a equipe de trabalho começa a chegar. Não se sabe ao certo quantos panfleteiros virão, mas às 8h a Kombi é abastecida de material e começa a jornada. No aguardo dos demais panfleteiros está Ivanildo Fernandes da Silva, 31 anos. Ele é homossexual e atende pelo nome de “Shirley”. Sobre como começou a ser panfleteiro, Ivanildo fala em ilusão e sobre o desejo de abandonar o serviço. “Fui convidado, na verdade, iludido. Quero sair. São cinco anos nesse trabalho. Antes vendia salgados no Serrambi”. Ouvindo o desabafo de Ivanildo, outra panfleteira de nome Francisca das Chagas Silva Santos, 50 anos, retruca defendendo o serviço. “Acho bom. Tá devagar, mas ganho bem e tenho folga para cuidar das minhas coisas. Antes eu trabalhava em casa de família”, lembra. É o mesmo pensamento de outra panfleteira, Maria José de Farias, 39 anos. “Eu gosto! É melhor do que ficar em casa sem fazer nada”.

A tarefa do dia não era nada simples: 40 mil panfletos para serem distribuídos em Nova Parnamirim, Ponta Negra, Capim Macio, Neópolis, Candelária, Lagoa Nova, Lagoa Seca, Barro Vermelho e Alecrim. O serviço será feito em forma de arrastão, com os panfleteiros descendo da Kombi em duplas para panfletar nas ruas escolhidas. Nada de novo na rotina deles, que acabam transformando o trajeto até o ponto inicial numa grande brincadeira com piadas e palavrões. Esse ambiente de trabalho é resumido pela panfleteira Liliane Dias da Silva, 28 anos, da seguinte maneira: “Tem hora que rola um stress, mas me divirto. Se o trabalho não for descontraído, ninguém aguenta”.

É consenso entre os panfleteiros que o maior inimigo desse tipo de trabalho é o sol. As empresas do setor foram notificadas pelo Ministério Público para o uso de alguns itens básicos para o trabalho como bonés, protetores de braço e protetor solar. Apesar de simples, nem todas as empresas conseguem manter 100% de sua equipe fardada adequadamente, como explica Adriano Rocha Neto, 30 anos, diretor da Maxmidia. “Como o fluxo de entrada e saída de panfleteiros é grande, nem sempre se consegue recuperar a farda de um panfleteiro que abandona o serviço. Assim, é comum os novatos ficarem com o fardamento pendente”.

“O serviço é bom, só não paga bem”

Após uma pausa para almoço no Restaurante Popular do Centro Administrativo do Estado, conhecido como Barriga Cheia, o trabalho retorna já no bairro da Candelária. O sol forte da hora do almoço já não incomoda tanto quem trabalha há mais de dez anos panfletando. Experiente, Francisco Canindé da Silva Filho, 29 anos, cita a baixa remuneração como o maior problema. “É bom panfletar, mas não faz dinheiro. O serviço é bom, só não paga bem”.  A remuneração baixa é resultado de uma atividade incerta. No caso dos panfleteiros da Medien Service, só há trabalho, no máximo, em três dias da semana. Para alguns é o que basta, até porque não conseguiriam suportar essa rotina diariamente, mas para aqueles que desejam prover o sustento de suas famílias, é insuficiente.

No trabalho de distribuição, o período da tarde passa mais rápido. O sol esfria e o ritmo do trabalho aumenta. O cansaço já se expressa nos rostos suados dos panfleteiros e o silêncio agora impera. Entre uma e outra rua escuto histórias sempre relacionadas ao desprezo que as pessoas têm pela atividade, em especial nos bairros mais nobres. Ivanildo conta sobre o dia em que soltaram os cachorros contra ele em Nova Parnamirim. “As pessoas não gostam quando enchem a caixa de correio delas. Quando virei à esquina, já soltaram os cachorros pra cima de mim”.


A noite chega e o serviço ainda está incompleto. Restam as ruas dos bairros da Zona Leste da cidade. Cria-se logo um pequeno conflito interno entre os que querem terminar o serviço naquela mesma noite e os que querem encerrar e continuar no dia seguinte. Ao final, fica decidido que o serviço restante fica para o dia seguinte. Em diferentes pontos da periferia da cidade o pequeno exército de panfleteiros vai descendo rumo as suas casas. Vão agora descansar e se preparar para mais um dia duro de trabalho dessa mídia silenciosa e importante. 

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