Panfletagem:
uma mídia silenciosa
Acompanhamos
um dia na rotina dos panfleteiros em Natal.
Diariamente,
nas ruas, avenidas, em semáforos ou em nossas casas, eles estão lá distribuindo
panfletos e encartes de grandes lojas, redes de supermercados e outros. Um
ritual simples e silencioso, que passa despercebido pela maioria das pessoas. Trata-se
do panfleteiro, função reconhecida pelo Ministério do Trabalho, porém,
marginalizada. Ganhos por produtividade e poucos requisitos para preenchimento
das vagas são características da função.
Em
Natal, nove empresas atuam no segmento. O tipo de panfletagem varia de acordo
com o desejo do cliente, sendo as mais comuns feitas em semáforos e a
residencial (porta-a-porta). O regime de
trabalho é por hora, com o ganho em função do tempo de serviço diário, mas
também se pode receber em função da quantidade entregue ou da área percorrida
(residencial). O dia de serviço em média rende em torno de R$ 20,00, mas como não
são diários, por vezes até incertos, os ganhos raramente chegam ao salário
mínimo. Por isso mesmo é maior o número de mulheres, em sua maioria donas de
casa, que fazem dessa atividade uma renda extra para a família.
Acompanhamos
um dia de trabalho na empresa Medien Service, especializada na distribuição em
residências. A partir das 7h a equipe de trabalho começa a chegar. Não se sabe
ao certo quantos panfleteiros virão, mas às 8h a Kombi é abastecida de material
e começa a jornada. No aguardo dos demais panfleteiros está Ivanildo Fernandes
da Silva, 31 anos. Ele é homossexual e atende pelo nome de “Shirley”. Sobre
como começou a ser panfleteiro, Ivanildo fala em ilusão e sobre o desejo de
abandonar o serviço. “Fui convidado, na verdade, iludido. Quero sair. São cinco
anos nesse trabalho. Antes vendia salgados no Serrambi”. Ouvindo o desabafo de
Ivanildo, outra panfleteira de nome Francisca das Chagas Silva Santos, 50 anos,
retruca defendendo o serviço. “Acho bom. Tá devagar, mas ganho bem e tenho
folga para cuidar das minhas coisas. Antes eu trabalhava em casa de família”,
lembra. É o mesmo pensamento de outra panfleteira, Maria José de Farias, 39
anos. “Eu gosto! É melhor do que ficar em casa sem fazer nada”.
A
tarefa do dia não era nada simples: 40 mil panfletos para serem distribuídos em
Nova Parnamirim, Ponta Negra, Capim Macio, Neópolis, Candelária, Lagoa Nova,
Lagoa Seca, Barro Vermelho e Alecrim. O serviço será feito em forma de
arrastão, com os panfleteiros descendo da Kombi em duplas para panfletar nas
ruas escolhidas. Nada de novo na rotina deles, que acabam transformando o
trajeto até o ponto inicial numa grande brincadeira com piadas e palavrões.
Esse ambiente de trabalho é resumido pela panfleteira Liliane Dias da Silva, 28
anos, da seguinte maneira: “Tem hora que rola um stress, mas me divirto. Se o
trabalho não for descontraído, ninguém aguenta”.
É
consenso entre os panfleteiros que o maior inimigo desse tipo de trabalho é o
sol. As empresas do setor foram notificadas pelo Ministério Público para o uso
de alguns itens básicos para o trabalho como bonés, protetores de braço e protetor
solar. Apesar de simples, nem todas as empresas conseguem manter 100% de sua
equipe fardada adequadamente, como explica Adriano Rocha Neto, 30 anos, diretor
da Maxmidia. “Como o fluxo de entrada e saída de panfleteiros é grande, nem
sempre se consegue recuperar a farda de um panfleteiro que abandona o serviço.
Assim, é comum os novatos ficarem com o fardamento pendente”.
“O serviço é bom, só não paga bem”
Após
uma pausa para almoço no Restaurante Popular do Centro Administrativo do
Estado, conhecido como Barriga Cheia, o trabalho retorna já no bairro da
Candelária. O sol forte da hora do almoço já não incomoda tanto quem trabalha há
mais de dez anos panfletando. Experiente, Francisco Canindé da Silva Filho, 29
anos, cita a baixa remuneração como o maior problema. “É bom panfletar, mas não
faz dinheiro. O serviço é bom, só não paga bem”. A remuneração baixa é resultado de uma
atividade incerta. No caso dos panfleteiros da Medien Service, só há trabalho,
no máximo, em três dias da semana. Para alguns é o que basta, até porque não
conseguiriam suportar essa rotina diariamente, mas para aqueles que desejam
prover o sustento de suas famílias, é insuficiente.
No
trabalho de distribuição, o período da tarde passa mais rápido. O sol esfria e o ritmo do trabalho aumenta. O
cansaço já se expressa nos rostos suados dos panfleteiros e o silêncio agora
impera. Entre uma e outra rua escuto histórias sempre relacionadas ao desprezo
que as pessoas têm pela atividade, em especial nos bairros mais nobres.
Ivanildo conta sobre o dia em que soltaram os cachorros contra ele em Nova
Parnamirim. “As pessoas não gostam quando enchem a caixa de correio delas.
Quando virei à esquina, já soltaram os cachorros pra cima de mim”.
A
noite chega e o serviço ainda está incompleto. Restam as ruas dos bairros da
Zona Leste da cidade. Cria-se logo um pequeno conflito interno entre os que
querem terminar o serviço naquela mesma noite e os que querem encerrar e
continuar no dia seguinte. Ao final, fica decidido que o serviço restante fica
para o dia seguinte. Em diferentes pontos da periferia da cidade o pequeno
exército de panfleteiros vai descendo rumo as suas casas. Vão agora descansar e
se preparar para mais um dia duro de trabalho dessa mídia silenciosa e
importante.


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